Opinião

Tillburg - Fim de linha ou ponto de viragem do meio-fundo Português?

Artigo de Opinião do professor e treinador Carlos Monteiro, publicado originalmente no portal Tiro de Partida

© Imagem: PicBon

Artigo de opinião

 

Este artigo é apenas uma reflexão, uma visão muito pessoal do estado do meio-fundo Português.

 

Depois de muitos anos longe destas competições, confesso que fiquei “congelado” enquanto assistia ao vivo às corridas dos atletas portugueses dos vários escalões…

Vários foram os sentimentos que de mim tomaram conta, estava completamente enfurecido com o que se estava a passar… Não estava a perceber o que se estava a passar… Prova após prova, os atletas portugueses encontravam-se nas caudas dos pelotões! Sei que houve um hiato na minha vida, enquanto apaixonado pela modalidade, muitos foram os anos de ausência, mas não estava preparado para o que ali sucedeu!

No entanto, duas horas depois do término dos campeonatos, iniciava o regresso ao Porto. Entre viagens e transferes, comecei a questionar-me sobre os acontecimentos. O que aconteceu ao meio-fundo português? Ao longo das últimas décadas participei em algumas formações, palestras sobre o tema. Ouvi de tudo, a sociedade mudou, as crianças e jovens não tem capacidade de sofrimento, não existe apoios a nível federativo e governamental, o atletismo deixou de ser atrativo, os treinadores pararam no tempo, etc. Se perguntasse a 10 pessoas qual a sua opinião, teríamos 10 respostas diferentes! Mas será que alguém se preocupou em pegar nisto tudo, analisar de forma crítica e refletiva e, tirar conclusões? Não me parece.

Na semana seguinte aos campeonatos, voltamos a assistir, quer pelos jornais, quer pelas redes sociais, ao arremesso de culpas, um deja vu, as culpas são sempre dos outros (federação, treinadores, atletas…).

Continuamos a perder tempo, com discussões efémeras, sem sentido, em vez de direcionarmos as energias, para voltar a por o meio-fundo na rota do sucesso… Já sei que aparecerão os “ velhos do Restelo” a afirmar, esses tempos não voltam mais, é impossível, bla, bla, bla.

Seria muito melhor assobiar para o ar e deixar as coisas continuarem assim, mas não me conformo, nem me rendo ao que assisti em Tilburg, tenho a certeza que podemos fazer muito mais e melhor, porque considero haver matéria-prima de boa qualidade, caso contrario não se estariam a bater recordes nas camadas jovens dos grandes heróis da década de 80/90.

É preciso olhar para o momento de forma positiva. É chegado o momento de encontrar soluções e não acusações, todos temos culpa na situação onde encontra o meio-fundo e, ninguém pode sacudir a “água do capote”!


1.      Teremos de mudar algo a metodologia de treino? Á primeira vista e, da realidade que conheço, falta nitidamente volume de treino aos atletas portugueses. Aqui colocam-se várias questões. Quais as razões?

Falta de tempo para treinar, os horários das faculdades são incompatíveis? Recordo aqui que o sucesso do meio-fundo português, por conquista do Prof. Moniz Pereira e da grande instituição, Sporting Clube de Portugal, deveu-se ao facto deste ter conseguido criado as condições para dispensa de emprego de alguns dos atletas por si treinados, de forma a puderem realizar o segundo treino diário. Este foi o grande impulso, para o sucesso desta geração. Outra das razões, poderá ser a adulteração da escola do meio fundo português, pois a metodologia de treino do Prof. Moniz Pereira era predominantemente baseada no endurance, ou como queiram chamar treino aeróbico, algo que há bem pouco tempo ouvi numa prelação organizada pela European Athletics (com argumentos científicos, mas exatamente o mesmo que o Prof. Moniz Pereira afirmava no seu tempo), onde era bem vincada o caminho que os europeus deveriam seguir. Por outro lado, os atletas de hoje, ao contrário da geração de 80, seguem os estudos, vão para as faculdades e, aqui começam os problemas. O nosso ensino superior não está minimamente adaptado aos alunos que são ao mesmo tempo atletas de alto rendimento, sendo o pior de tudo os horários, quer do ensino secundário, como algumas faculdades a terminarem às 19/20h! O que fazer? Aqui a solução só poderá vir do Governo da República, mas onde a FPA terá de ser mais ativa, insistir e convencer a tutela, da importância deste ponto.

 

2.      Começar desde já a pensar em Paris 2024! Parece muito tempo, mas não - é o necessário! A começar já para selecionar um conjunto de atletas, apoiando-os não com dinheiro (sabemos que não abunda), mas equipamento, estágios, competições no estrangeiro, apoio ao nível de massagem, médico, fisioterapia.

 

3.      Em relação aos atletas, continua haver grande qualidade, mas não quantidade. Estes para serem atletas de alto nível terão de fazer opções. Sabemos que para ser aleta de alto nível, necessita existir volume de treino, só possível com treino bi-diário! Se são estudantes e, como sabemos que o sistema do ensino universitário não está adaptado ao alto rendimento desportivo, só resta uma opção, fazer as disciplinas de forma mais prolongada no tempo, diminuindo a carga diária, tal como alguns atletas das disciplinas técnicas o fizeram. Para os que seguem a via do emprego, exigirá um grande espírito de sacrifício, pois terá de efetuar uma sessão de treino antes de começar o seu emprego e ao mesmo tempo necessitará de um controlo atento do treinador da fadiga, que obrigatoriamente se instalará.

 

4.      Programa anual competitivo. Sabemos que os clubes estão em várias frentes, ao contrário do meu tempo, onde havia dois períodos bem definidos, o de Cross e o de Pista ao Ar Livre. Aqui nitidamente, os atletas e os clubes terão de fazer opções, sendo impossível que o atleta esteja em todas as frentes. O atleta necessita de períodos longos de preparação, que desta forma não poderá fazer, não atingindo patamares mais elevados. Para terminar é fundamental a minha perspetiva, que regressem às competições de pista, voltem a correr rápido, pois é na minha modesta opinião a principal razão do declínio do meio-fundo, é claro que existiram muitas mais, mas esta tem uma percentagem mais elevada.

 

5.      A nível federativo, é preciso voltar a “acarinhar a disciplina” como já foi em outros tempos! É preciso um maior apoio aos atletas e treinadores, sobretudo no período de juniores e, passagem a sénior, período de “travessia do deserto”, onde uma larga maioria abandona a modalidade.

 

6.      Organizadores de provas de Atletismo. Vejo milhares de provas de estrada todos os anos, com prémios monetários, bem inferior ao meu tempo - porque não apostarem também em corta-matos? Logisticamente mais fáceis de realizar, mais baratos e que seria um enorme contributo para o meio fundo, termos um calendário de cross de novembro a março.

 

Carlos Monteiro










 Informação

16
Janeiro 2019


13h05


Carlos Monteiro



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