Entrevista

ENTREVISTA: «Como é ser um ultra-atleta?», com João Oliveira

João Oliveira, ultra-atleta de 35 anos, é natural de Chaves e venceu recentemente a TransOmania, na Omã, uma ultramaratona de 300 quilómetros, pelo meio do deserto. No ano passado, João já tinha vencido a mediática Spartathlon na Grécia. Conheça melhor a vida de um ultra-atleta, nesta entrevista exclusiva ao tirodepartida.pt.

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P: Olá João, no mês passado venceu a TransOmania, 300 quilómetros pelo meio do deserto, quase 60 horas em competição. Como surgiu este gosto pelos trails e ultramaratonas?
R: O gosto pelas ultramaratonas e trails, surgiu mais pelo desafio. Não é que seja competitivo, apenas gosto desafiar limites. Sigo sempre duas linhas de orientação, uma elaborada pelo nosso poeta Fernando Pessoa e outra criada por mim. A de Fernando Pessoa: «Cheio de Deus, não temo o que virá, pois venha o que vier, nunca será maior que a minha alma», a orientação criada por mim: «Se os outros conseguem, eu tentarei, se até hoje ninguém conseguiu, verei até onde poderei chegar!».

P: Em que ano começou a prática de atletismo? Inciou logo como atleta de trail e ultramaratonas, ou chegou a praticar outros setores no atletismo?
R: Iniciei a minha prática de atletismo nos tempos de escola. Iniciei a minhas primeiras competições nos corta-matos militares, primeiro nos 5 mil e depois nos 10 mil metros.
Em 2001, em agosto fiz a minha primeira meia maratona (Lamego) e em setembro a minha segunda meia maratona (Viseu), depois em dezembro do mesmo ano, a minha primeira maratona (Lisboa).
Iniciei a minha primeira experiência em Trail na Ultra-maratona dos 101 km em Ronda – Espanha (feita pela legião espanhola) em 2004. Seguidamente vieram as ultras de estrada e de montanha e as maratonas passaram a ser treinos de preparação.

P: Para conseguir correr tantos quilómetros e manter-se tantas horas em competição, é necessário muito treino de certeza. Quantos treinos faz em média por semana, quanto tempo e quantos quilómetros?
R: Faço, em média, 5 a 6 treinos por semana (esta semana 5 e na outra seis). Em média, faço 250 km por semana, sendo por vezes a introdução de treino longo ao fim de semana, o que leva aos 300 km por semana.

P: É de certeza, preciso ser um grande apaixonado para conseguir aventurar-se como o João e outros ultramaratonistas. Qual é a sua motivação? O que pensa durante as tantas horas de competição?
R: Sim, é preciso ter paixão pelo atletismo. Não basta somente gostar, é preciso mesmo paixão, só assim se consegue manter em prova quando as forças se escasseiam e as dores invadem tudo o que é sentidos.
Aproveito durante a prova, planear objetivos, resolver questões do dia-a-dia, rir-me de certas conversas e, por vezes, se pensa em tanta coisa, que quando nos damos conta nem sabemos do que estavamos a pensar há segundos atrás. (risos)

P: No início da prova, o João teria dito que o objetivo era ficar num lugar do pódio ou algo muito lá perto. Qual foi a sensação quando cortou a meta em primeiro lugar?
R: A sensação foi mais de recompensa, em virtude dos treinos que tinha feito e das dores ao longo da prova. Não foi fácil, porque eu fui lesionado para a prova, e quem me assistiu antes da partida para o país Omã, foi o massagista do Desportivo de Chaves. Por isso, eu referi: «se não ganhar andarei perto do pódio».

P: O João chegou ao fim a par com o segundo classificado, mas podia ter chegado muito antes, não fossem os camelos a comer as placas de sinalização. Chegou a sentir-se perdido no meio do deserto? Vontade de desistir ou sempre confiante em encontrar a meta?
R: Quando estava a 7 km do CP 7 [CP = Posto de Controlo], vi que não havia placas de sinalização, apenas os paus. Durante o verifying, a organização alertou-nos que se a gente não visse placas durante 1km ou 1,5km, retornassemos para trás que estavamos perdidos. E assim foi, virei para trás até encontrar novamente a última suposta placa que somente tinha o pau. Decidi-me então seguir pela esquerda, mas corri mais de 1km e tive que voltar novamente para trás. Decidi então ir pela direita e voltou a acontecer o mesmo. Até que decidi esperar por outro atleta que tivesse GPS, e apareceu cerca de 15 a 20 minutos mais tarde o sueco, Johan. Por sorte, tinha GPS, ligou e levou-nos direito ao CP 7. Alertamos a organização pela falta de placas e foi-nos dito que eram os camelos que comiam. Mas em todo o momento nunca tive qualquer sentimento de desistência, afinal, estava em primeiro.

P: Como este momento insólito, o João já deve ter encontrado outros do mesmo género. Dê-nos um exemplo.
R: Sim, sem dúvida, nos 101 km de Ronda – Espanha, que me perdi, mas depois voltei atrás e no final, em vez de fazer 101 km, fiz 119km. O mesmo se passou no Ultra-Trail da Geira Romana, no Ultra-Trail da Serra da Freita, mas o sentimento foi sempre o mesmo, tentar chegar à meta e recuperar o tempo perdido. Mas por vezes, acontece em que a mente nos atraiçoa, perguntando que andas aqui a fazer. (risos)

P: Em competição, qual foi o melhor momento da sua carreira, o pior, e o que mais o marcou?
R: O meu melhor momento foi vencer o Spartathlon de 246 km, em Atenas, uma das mais ambiciosas provas em estrada do mundo do ultramaratonismo. O meu pior momento foi ter sido eliminado em 2012 aos 157 km (já nas montanhas, apesar de ter 4h de vantagem sobre o fecho do percurso entre os CP), por motivos de não ter assistência caso me desse de novo cãimbras. Naquela altura fiquei furioso perante a organização, mas hoje até agradeço, porque os próximos quilómetros eram realmente em cima de pedra onde a assistência era quase mínima, ao extremo.
O momento que mais me marcou foi ter conseguido terminar a Maratona de Badajoz em 2009, um ano bastante difícil, que aos 37kms estava tão debilitado, quase nem poderia ver o alcatrão, tornando-se branco. Correndo por vezes sem direção, até ao ponto de ter saído do trajeto e ter batido contra a parede de um prédio. Voltei, de novo ao trajeto, com ajuda dos apoiantes e quando cheguei aos 42kms, a fraqueza era tal, que o que via era somente o arco da meta, e corri até ele, não me lembro de ouvir as pessoas a aplaudir, não me lembro da organização anunciar a chegada dos atletas, só me lembro de duas coisas: ter cortado a meta e alguém ter colocado a medalha em volta do pescoço e, quando acordei já estava no hospital. Este momento marcou simplesmente, não por ter ido parar ao hospital por falta de açúcar (fraqueza), mas sim, pela força que o corpo conseguiu me levar à meta mesmo nos limiares das poucas forças que tinha.

P: Sabemos que é difícil muitas vezes deslocar-se a estas competições. Com que apoios o João conta para levar o nome de Portugal a tantos cantos do Mundo?
R: Agora, estão a surgir apoios, já fechei acordo com a Mike Davis, com os fornecedores de material de montanha da Runners, ainda estamos em negociação com a Caixa Agrícola, Agência Abreu e Decathlon.






 Informação

02
Março 2014


00h00


Tiago Santos



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