Notícia

Crise no meio-fundo

 

Como já foi referenciado anteriormente, Carlos Monteiro escreveu um artigo de opinião sobre a crise no meio-fundo nacional e até internacional.

© Imagem:

Veja o que referenciamos na passada quinta-feira.

 

Opinião

Esta reflexão pretende unicamente dar um contributo para a discussão (ausente) da situação atual do meio-fundo português.

Ao longo das últimas duas décadas vimos assistindo a uma forma progressiva ao desaparecimento de um setor do atletismo que chegou a ser temido em todo mundo, e que deu ao nosso país quatro medalhas de ouro em jogos olímpicos, (únicas em todo o desporto português), além de outras dezenas nos variados campeonatos, europeus e mundiais.

Este fenómeno não é exclusivo do nosso país, mas sim de todo mundo desenvolvido. No entanto interessa refletir sobre o nosso caso. Quais as causas? Na minha opinião de pessoa que viveu a época de ouro do meio-fundo, e agora como treinador e observador atento da situação  apontarei alguns fatores, que na minha ótica foram cruciais para chegarmos a este ponto:

1-      Deixamos de correr rápido! Os atletas e treinadores ao optarem por correrem praticamente  em estrada e corta-mato, foram lentamente perdendo algo fundamental para se ser um atleta de alto nível, ou seja correr rápido.

2-      Desvirtuação da escola Moniz Pereira. Treinadores passaram a utilizar volume de treino, em prol da intensidade de treino.

Para mim estas duas razões foram primordiais, pois por consequência levaram a que outras surgissem:

1-      Resultados modestos levaram ao desinteresse de sponsors.

2-      Clubes tradicionais, passando por grandes dificuldades financeiras, deixaram de apostar na modalidade.

3-      Incapacidade da FPA de potenciar os enormes feitos da modalidade.

4-      Demasiada dependência do orçamento do estado.

5-      Excesso de competições, sobretudo em alguns períodos, impedindo a possibilidade de realização de macro-ciclos de treino.

6-      Atletismo de formação abordado de forma errada. Cargas de treino elevadas, especialização precoce.

7-      Ausência de atualização na formação dos treinadores.

8-      Falta de enquadramento do ensino superior com o alto rendimento.

9-      Alterações sociais relevantes (a criança e o jovem de hoje tem características diferentes, das gerações de 80-90.

Poderia apontar outras razões, pois certamente haverá outras, mas estas na minha conceção são as mais relevantes. Muitos se questionarão, então não há nada a fazer? È claro que inverter este declínio é algo que demorará anos, ou até décadas. No entanto urge tomar decisões que possam contribuir para o ressurgimento desta disciplina. Assim sendo, considero a formação dos técnicos uma prioridade. É necessário fazer renascer a escola Moniz Pereira e adicionar-lhe novas áreas de treino que na conceção do autor eram desvalorizadas.

Nos últimos anos, tem surgido imensos trabalhos de investigação, que vieram dar um enorme contributo, abrindo novas perspetivas, para a melhoria do processo de treino, que devem de ser aproveitadas, no sentido de enriquecer o mesmo. É hoje possível, realizar um planeamento de treino mais científico mais rigoroso, partindo da avaliação e controlo de treino, tão menosprezado pelos nossos atuais treinadores. Para finalizar é fundamental diversificar o treino, enriquecê-lo com as novas áreas do exercício físico e torna-lo mais atrativo. É necessário dar mais importância ao trabalho coordenativo, á técnica de corrida (melhoria da economia e corrida), ao trabalho de força e flexibilidade, tão menosprezado, melhorar a agilidade e destreza, o treino de meio-fundo não pode viver exclusivamente da corrida.

 Na formação o treino tem de ser integramente lúdico, dando maior importância aos aspetos coordenativos em prol dos condicionais, no fundo o que o setor necessita é de uma revolução nas mentalidades!

 

Prof. Carlos Monteiro






 Informação

04
Janeiro 2014


00h00


Carlos Monteiro



1679 visualizações